Fundadores
Extraído do livro “Religiosos de Nossa Senhora de Sion”, de autoria do Padre Vicente Pinto Ribeiro,nds, págs. 12s.
A Providência divina houve por bem preparar um caminho diferente para o jovem Afonso Ratisbonne, nascido igualmente em Estrasburgo, em Io de maio de 1814. Ao nascer, foi-lhe dado um nome pomposo: Tobias Carlos de Afonso Ratisbonne. Era o oitavo filho de Augusto Ratisbonne e de Adelaide Ceríbeer, que veio a falecer quando Afonso contava apenas com quatro anos de idade. Sua educação religiosa foi praticamente nula, aprendeu a ler o hebraico sem compreender nada. entretanto, fez seus estudos clássicos no colégio Real de Estrasburgo. Com 17 anos, Afonso era bacharel em direito e desfrutava de uma enorme fortuna, pelo fato de ter caido nas graças de um tio seu que lhe dedicava uma especial afeição, o tomara como filho e lhe dera carros, cavalos e viagens. Deu-lhe ainda a assinatura nos bancos, prometendo-lhe grandes vantagens. Entretanto, Afonso se deleitava com os “Campos Elísios” de Paris, com as rodas de amigos e com os cafés. Ele pensava que estava no mundo somente para gozar a vida, escolhia os prazeres com muita avidez. Para ele o ar dos escritórios era enfadonho, as ocupações tiravam-lhe o bom humor. As preocupações religiosas eram seus últimos cuidados. Ele dizia que era judeu de nome, pois não acreditava nem mesmo em Deus. Jamais abrira um livro de religião. Afonso amava todos os seus irmãos e irmãs, com exceção de Theodoro que ele detestava, pelo fato de se fazer batizar, vestir a batina e se fazer sacerdote. No entanto, Deus, por meio da Virgem Maria, havia preparado para ele um encontro maravilhoso.
Afonso se tornara noivo de uma sobrinha cujo nome era Flora e ele era apaixonado por ela. Como, porém, a menina tinha apenas 16 anos, era necessário que ela atingisse a idade núbil. Enquanto Afonso se preparava para as núpcias, caiu doente, e os médicos lhe aconselharam empreender uma viagem para o Oriente para um tratamento. Não estava em seus planos passar por Roma, mas o barão de Rothschild e o protestante Culman insistiram para que ele visitasse a cidade dos Papas. Sem nenhum interesse, foi a Roma e a percorria visitando as galerias, as ruínas antigas e as esplêndidas esculturas, mas nada lhe chamava a atenção, pelo contrário, muitas vezes tecia comentários irreverentes contra a Igreja, os Papas e os Jesuítas. Encontrou-se, porém, com um antigo amigo que era protestante, mas se convertera ao catolicismo e vibrava com a devoção à Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças. Este, com muita coragem, persistência e até mesmo com um zelo altamente indiscreto, conseguiu que sua filha colocasse no pescoço de Afonso uma Medalha Milagrosa e depois insistiu para que ele recebesse uma estampa da Virgem com a oração “Lembrai-vos”, a copiasse e lhe devolvesse a estampa da Virgem Maria. Não é difícil imaginar as expressões e a repugnância de um judeu, diante de uma estampa de Nossa Senhora.
Entretanto, Afonso guardou a medalha no peito e levou consigo a oração. Em casa, no silêncio da noite, começou a ler a oração e, depois de copiá-la, chegou a decorá-la, pois dizia ele, “ela exercia uma força tão irresistível sobre mim, que cheguei a decorá-la.” Tudo isto aconteceu no dia 19 de janeiro de 1842. No dia 20, quando o jovem Afonso caminhava nas imediações da igreja de Santo Andre delle Fratte, foi abordado pelo seu amigo Theodoro de Russière que o convidou para subir em seu carro e juntos foram até a igreja tratar dos funerais do senhor de 1′Aferronays. Quando chegaram à igreja, Afonso sentiu vontade de entrar no templo, mas simplesmente como turista. Entrou… Depois ele mesmo narrou o episódio da seguinte maneira: “Eu estava aí… depois de um instante, quando subitamente fui tomado por uma emoção inexprimível… levantei os olhos, e todo o edifício estava como que oculto aos meus olhares; só a capela do arcanjo São Miguel concentrava toda a luminosidade e como centro da luz, apareceu sobre o altar “grande, brilhante, cheia de majestade e de doçura”, a Virgem Maria, tal qual está sobre a Medalha Milagrosa; uma força irresistível me arrastava para ela. A Virgem me fez sinal com a mão, para eu me ajoelhar. Ela me parecia dizer: ‘Está tudo bem!’ Ela não me disse nada, mas eu compreendi tudo.” A partir desse momento o único desejo de Afonso era ser batizado e receber a Eucaristia. Ele atribuía sua conversão às orações do senhor de PAferronays, de seu irmão Theodoro e da Arquiconfraria de Nossa Senhora das Vitórias. No dia 31 de janeiro, o Cardeal Patrizi batizou e crismou Ratisbonne na igreja do Gesú, em Roma. Quando lhe perguntou qual o nome que ele iria escolher, ele respondeu com um rasgo de reconhecimento: “Maria!” Depois entrou para os Jesuítas, foi ordenado sacerdote aos 23 de setembro de 1848 por Mons. Rouvier. Aos 18 de dezembro de 1852, o Pe. Afonso deixou a Companhia de Jesus e com seu irmão Theodoro deram início à Congregação de Sion. Com um grupo de religiosas, dirigiu-se à terra santa e, em Nazaré, encontrou-se com Mons. Valerga, então Patriarca de Jerusalém que animou sobremaneira o Pe. Afonso em seu projeto de estabelecer, perto do Calvário, uma comunidade de religiosas de N. S. de Sion.
Afonso acabou adquirindo uma propriedade, aos 20 de janeiro de 1858, tomou posse do terreno do “Ecce Homo” e ali celebrou a Eucaristia em ação de Graças. Depois comprou também um sítio, onde construiu a casa das Irmãs, nas Montanhas da Judeia, Ain-Raren. Finalmente adquiriu, de um árabe, o lugar, onde, de acordo com a tradição, Isaías teria feito a profecia do nascimento virginal de Jesus: “Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho”. O grande edificio foi inaugurado em 1874. Seviu como Escola profissionalizante até a creação do Estado de Israel em 1948 e se transformou em seguida, pouco à pouco no CCEJ – Centro Cristão de Estudos Judaicos – até o ano de 2001. Com o fechamento do Centro Pontifical Ratisbonne, a casa passou a ser o Instituto Superior de Teologia dos Salesianos em Jerusalém e os Religiosos de Sion, tendo recuperado sua biblioteca especializada em estudos judaicos, retomaram o Centro Saint Pierre de Sion-Ratisbonne na ala direita do mesmo edificio onde reside uma pequena comunidade de religiosos de Sion.
Nos últimos dias de sua vida, ele ficou completamente cego e dizia à Virgem Maria: “Deixai o pobre Padre Maria em seu canto, ele nunca serviu para nada e agora é mais incapaz do que nunca”. Atingido por uma forte pneumonia, veio a falecer aos seis de janeiro de 1884 em São João da Montanha. Alguns instantes antes de morrer, uma luz celeste brilhava em seu semblante.
Nesta linda propriedade das irmãs de Sion, Religiosos e Religiosas de Sion animam e desenvolvem juntos a “guest House”: uma casa de acolhida para visitantes e peregrinos em busca de um oasis de paz, de retiro, oração e encontro com a Sion do Pe. Marie Alfonse Ratisbonne.
Padre Theodoro Ratisbonne
Artigo extraído do livro “Religiosos de Nossa Senhora de Sion, de autoria do Padre Vicente Pinto Ribeiro, nds, págs 9s.
É evidente que uma congregação religiosa não nasce por acaso, ou por uma veleidade; ela é fruto de um verdadeiro profetismo. E, para tal, Deus escolhe alguma pessoa que, por vários caminhos, descobre o projeto de Deus. Nós nascemos na mente do Padre Theodoro Ratisbonne, tivemos como primeiro nome, “Sociedade dos Padres de São Luís”; depois, “Padres de Sion”. Mais tarde, fomos chamados de “Missionários de Nossa Senhora de Sion” e, atualmente, “Religiosos de Nossa Senhora de Sion”. Nossas raízes estão fixadas no jovem “Simon” Theodoro Ratisbonne; o nome “Simon” é muito significativo pela referencia ao nome do grande Apóstolo, escolhido para ser o representante visível de Jesus à frente de sua Igreja. Theodoro nasceu aos 28 de dezembro de 1802 em Estrasburgo, era judeu de sangue, mas não de convicção religiosa. Iniciou seus estudos em sua cidade natal. Aos sete anos, foi levado para Paris para uma experiência num pensionato. Com a idade de quatorze anos, transferiu-se para Frankfurt e, aos dezesseis anos, volta novamente para Paris, onde se inicia em questões bancárias com a família Fould. Nessa época morre sua mãe — Adelaide Cerfbeer, esposa de Augusto Ratisbonne, seu pai. Theodoro cai em uma tristeza imensa e é aconselhado a voltar para Estrasburgo. Aí ele se instala em uma pequena aldeia chamada Robertsau, onde vive como um filósofo solitário, mergulhado em suas profundas meditações sobre o sentido de sua vida. Em 1822, volta a Paris para continuar seus estudos, preparando-se para o bacharelado e os estudos de direito. Então ele se entrega a uma vida folgada e mundana. Algumas pessoas foram marcantes no decurso de sua vida: o primeiro foi o senhor Cuvier, Reitor da Faculdade de Direito, que forçou Theodoro a encarar a vida com maior seriedade. O segundo foi o jovem Julio Levei que o convida a seguir os estudos de filosofia com uma pessoa que muito marcou a personalidade de Theodoro, trata-se do senhor Luis Bautain, professor de filosofia, em casa da senhora Luisa Humann. Esta foi a quarta figura que modelou definitivamente o seu espírito de fé. Finalmente, em 14 de abril de 1827, batizou-o secretamente, por diversas razões bem conhecidas na época.
A caminhada de Theodoro foi uma luta e uma vitória, um processo das trevas para a luz que é Jesus Cristo Homem–Deus. Muito teríamos a falar sobre a figura de Theodoro, mas para sintetizar, podemos compará-lo a Santo Agostinho de Hipona, em todo o seu processo de conversão. Theodoro teve momentos de terríveis perplexidades no seu pensamento e em seu coração, mas apelou para Deus que lhe Deu uma luz nova.
Uma vez convertido, o jovem Theodoro preparou-se para o sacerdócio, de maneira bastante sumária, recebeu as Ordens menores, em 28 de outubro de 1828 e o Presbiterato em 18 de dezembro de 1830. Devido a uma grave moléstia que o acometeu, somente pôde celebrar sua primeira missa aos 6 de janeiro de 1831, dia da festa da Epifania, na igreja de São João, em Estrasburgo.
Em 1840, o grande pregador Lacordaire aconselha os Padres de “São Luís” a saírem de Estrasburgo, por questões de desencontros doutrinários na diocese. Assim o fizeram e foram para Jully, mas o Pe. Theodoro transferiu-se para Paris e se fez auxiliar do Pe. Dufriche-Desgenètes que era o cura da Paróquia Nossa senhora das Vitórias. Aí o Pe. Theodoro desenvolveu grandes atividades pastorais de modo muito especial como Diretor da Arquiconfraria das Mães Cristãs. É impossível resumir a vida de uma pessoa, em algumas páginas. Teríamos de empreender uma caminhada como o fez o Pe. Theodoro parar perceber a riqueza do interior de sua alma e os sentimentos que animavam seu coração de judeu convertido, querendo ardorosamente converter seus irmãos de sangue para Jesus Cristo e sua Igreja.
Desse desejo grandioso nasceu a Congregação das Religiosas de Sion e dos Religiosos de Sion. Hoje, nossos enfoques, em relação aos judeus, são dirigidos e motivados por outras visões. A partir do concílio Vaticano II, entramos no mundo do Diálogo ínter-Religioso e de um grande respeito pelo patrimônio que os judeus nos deixaram. O Pe. Theodoro veio a faleceraos 10 de janeiro de 1884 e seus restos mortais estão no Cemitério de Grand-Bourg, nas proximidades de Paris.
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